Elijah, exausto de tanto chorar e se debater em meio à confusão dos próprios sentimentos, acabou adormecendo ali mesmo, aninhado contra o peito de Edgar. O corpo pequeno subia e descia em respirações curtas e quentes, ainda entrecortadas por soluços adormecidos.
Edgar permaneceu imóvel por um tempo, apenas sentindo aquele peso frágil e precioso contra si. Os olhos duros, acostumados ao mundo violento, agora se suavizavam enquanto observava cada detalhe de Elijah: os cabelos loiros bagunçados, a pele ainda úmida pelo sereno da noite, as sobrancelhas franzidas como se mesmo no sono ele ainda tivesse medo de ser abandonado.
Um nó apertou-lhe a garganta. Nunca tinha cuidado de ninguém daquela forma, nunca tinha deixado que alguém ocupasse tanto espaço dentro de si.
Com cuidado, Edgar se levantou, ajeitando o corpo de Elijah nos braços como se fosse a coisa mais delicada do mund
Chegando ao quarto, deitou-o na cama com gentileza, puxando as cobertas até os ombros estreitos do garoto. Elijah resmungou baixinho, virando-se de lado e agarrando o travesseiro como quem se agarra a um porto seguro. Edgar sorriu de leve — um sorriso raro, que ele mesmo não percebia.
Sentou-se na beira da cama por alguns instantes, passando uma mão pesada, mas surpreendentemente suave, pelos cabelos loiros até que Elijah relaxasse por completo.
— Dorme, garoto… — murmurou baixo, quase como um segredo que não queria que fosse ouvido. — Eu tô aqui.
Depois, ajeitou uma cadeira próxima da cama e ali ficou. Não pregou os olhos pelo resto da madrugada e da manhã. Apenas observava Elijah, atento a cada movimento, checando sua respiração, colocando a mão em sua testa para sentir se a febre não voltava, certificando-se de que nada o incomodava.
Enquanto o sol nascia devagar e iluminava o quarto com tons dourados, Edgar continuava firme em sua vigília silenciosa. O homem duro, que sempre viveu cercado por armas, ordens e perigos, agora passava a manhã cuidando do ser mais frágil e ao mesmo tempo mais importante que já cruzara seu caminho.
E, no fundo, ele sabia: estava perdido. Elijah não era apenas alguém que ele precisava proteger. Era alguém sem o qual ele já não sabia mais viver.
A manhã já estava avançada quando Elijah começou a se mexer na cama. Primeiro um resmungo baixinho, depois os olhos azuis se abrindo devagar, piscando contra a luz suave que entrava pela janela. Ele ainda estava cansado, mas a primeira coisa que viu foi a silhueta de Edgar, sentado na cadeira, encostado para trás com os braços cruzados.
Edgar parecia exausto. As olheiras denunciavam que não havia pregado os olhos a noite inteira. Mesmo assim, sua postura era atenta, como se estivesse pronto para se erguer ao menor sinal de necessidade.
Elijah piscou algumas vezes, tentando entender. O coração apertou: Edgar tinha ficado ali… por ele?
— Edgar… — a voz saiu fraca, rouca, quase um sussurro.
Edgar se inclinou imediatamente para frente, a mão grande repousando na beira da cama, perto do braço do garoto. — Como você tá? — perguntou em tom baixo, firme, mas cheio de cuidado.
Elijah engoliu em seco, e seus olhos se encheram de lágrimas sem ele sequer perceber. — Você… ficou aqui?
Edgar desviou o olhar, coçando a nuca como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. — Claro que fiquei. Você achou que eu ia te deixar sozinho depois daquela cena toda, garoto? — tentou soar ríspido, mas sua voz traiu a própria ternura.
Elijah mordeu o lábio inferior, sentindo o peito aquecer. Era estranho, mas o medo de ser descartado começava a se dissolver devagar. Ainda havia insegurança, claro, mas ali, diante daquele homem que velara seu sono como um guardião, ele começava a acreditar que não estava tão sozinho quanto pensava.
Com um gesto tímido, Elijah estendeu a mão debaixo da coberta e encostou nos dedos de Edgar. Foi um toque leve, hesitante, quase infantil. — Eu não quero ir embora… — confessou num fio de voz. — Eu só quero ficar… se você deixar.
O olhar de Edgar se fixou nele. Por dentro, sentiu o peito se apertar de uma forma estranha e doce. O garoto não fazia ideia do quanto aquelas palavras o destruíam e o reconstruíam ao mesmo tempo.
Ele apertou de leve os dedos finos de Elijah, inclinando-se um pouco mais. — Você não entende… não é sobre deixar ou não deixar. É sobre eu não conseguir mais te imaginar longe de mim. — A voz saiu rouca, carregada de uma sinceridade que ele raramente permitia.
Elijah o fitava com os olhos marejados, azuis como um lago profundo. Pela primeira vez, Edgar não desviou. Ficaram ali, em silêncio, apenas se olhando — um silêncio pesado, mas cheio de coisas não ditas.
Até que Edgar pigarreou, voltando ao seu jeito prático. — Vamos… você precisa comer alguma coisa. — levantou-se abruptamente, mas não soltou a mão de Elijah de imediato, demorando alguns segundos a mais do que deveria antes de soltar.
Elijah, ainda deitado, acompanhou o movimento com os olhos brilhando, o coração disparado. Pela primeira vez, acreditava de verdade que Edgar não queria se livrar dele.
Edgar saiu do quarto em passos largos, mas o peso em seu peito era tão grande que parecia que arrastava correntes. Precisava se ocupar, precisava fazer algo com as próprias mãos antes que fosse engolido por tudo o que estava sentindo. Então foi até a cozinha, abriu a geladeira e começou a preparar algo simples: ovos, pão, café forte. Movia-se de forma mecânica, mas em cada gesto havia uma intenção — cuidar de Elijah.
Poucos minutos depois, passos tímidos soaram no corredor. Elijah apareceu na porta, ainda com o cabelo bagunçado do sono e a camisa um pouco larga demais caindo sobre o ombro. Seus pés descalços arrastavam no piso frio, mas seus olhos azuis estavam atentos, inseguros.
Edgar ergueu o olhar apenas por um instante e logo voltou a focar na frigideira. — Senta aí. — disse seco, apontando com o queixo para a mesa.
Elijah obedeceu sem discutir. Sentou-se devagar, apoiando os cotovelos na mesa como se não soubesse bem o que fazer com o próprio corpo. O silêncio pairava, interrompido apenas pelo chiado da frigideira e o tilintar da colher contra a xícara de café.
Quando Edgar colocou o prato à sua frente, Elijah sorriu pequeno, quase tímido. — Obrigado… — murmurou, os dedos brincando com a borda do prato.
Edgar sentou-se em frente, a caneca de café quente entre as mãos. Observava o garoto de relance, tentando não encarar diretamente, mas era impossível não notar o jeito como Elijah mordiscava o pão devagar, como se saboreasse não só a comida, mas também a sensação de estar ali, partilhando aquele momento.
— Não precisa agradecer. — Edgar resmungou, mas por dentro seu peito se apertava. Aquilo parecia uma cena doméstica, uma vida que nunca acreditou poder ter. Ele, duro como pedra, sentado diante de um garoto que olhava para ele com uma confiança frágil… e doce.
Elijah levantou os olhos, encontrando os de Edgar sem querer. Rapidamente desviou, corando, mas o suficiente para que o outro notasse.
Edgar pigarreou, tentando recuperar o controle. — Come mais. Você precisa ganhar força. —
Elijah riu baixinho, e o som foi tão leve que pareceu iluminar a cozinha. — Você fala como se fosse meu pai… — brincou, mas logo se arrependeu, mordendo os lábios e abaixando a cabeça, envergonhado.
Edgar sentiu o estômago revirar. Aquele riso inocente, a provocação tímida… aquilo o queimava por dentro de um jeito torturante. Mas, em vez de reagir com dureza, apenas deixou escapar um meio sorriso de canto, raro, quase imperceptível. — Pai eu não sou. — murmurou, a voz grave e baixa. — E nunca vou te tratar como filho. —
As palavras pairaram no ar, densas, cheias de significados ocultos. Elijah levantou os olhos devagar, confuso, o coração disparando. Edgar, percebendo o próprio deslize, voltou a beber o café, como se aquilo apagasse o que havia dito.
Mas não apagava.
O silêncio que seguiu não era vazio, e sim carregado. Cada olhar furtivo, cada gesto simples, se transformava em algo maior, quase palpável.