Meu nome é Bianca, mas quase todo mundo me chama de Bibi. Estou no primeiro ano do ensino médio e não tenho características muito marcantes. Sou parda, tenho seios médios, corpo de “falsa magra” e cabelos ondulados que chegam até o meio das costas. Atualmente moro com minha mãe, uma mulher linda, alta, loira, de olhos verdes. Não herdei nenhuma dessas características, mas ainda assim me considero uma menina bonita.
Nunca tive muito contato com meu pai biológico, mas isso não me impediu de ter uma figura paterna. Tio Bruno sempre esteve presente. Mais que tio, ele é como um pai para mim: ajudou mamãe quando eu nasci, me levava para a escola, para o balé e para a natação. É o irmão mais velho dela, alto, forte, tatuado, com sobrancelhas marcantes que dão a ele uma expressão séria. Mas quem o conhece de verdade sabe que, por trás dessa aparência de “cara de mal”, existe um coração enorme.
Este ano foi bem diferente. Mamãe está trabalhando mais do que nunca, tentando conciliar o escritório com o mestrado. Enquanto isso, Tio Bruno passou dois anos fora do país, na Austrália, finalizando seu doutorado em Biologia. Eu também estava vivendo mudanças: troquei de escola, ainda não tinha muitos amigos e, para completar, era o ano da minha festa de debutante.
Sempre deixei claro que nunca sonhei com uma grande festa. Não me entenda mal: eu adoro ir a festas, mas não tenho paciência para lidar com todas as formalidades, dar atenção a todo mundo, sorrir para conhecidos distantes. Mesmo assim, mamãe não queria que essa data passasse em branco. Foi então que surgiu a ideia perfeita: aproveitar minhas férias de julho para viajarmos até a Austrália, visitar o Tio Bruno e ajudá-lo com a mudança de volta para o Brasil. Dessa forma, uniríamos o útil ao agradável e eu teria uma lembrança especial para recordar meu aniversário.
Todos os dias eu conversava com o Tio Bruno. Contava sobre a escola, sobre meus poucos amigos, sobre as primeiras descobertas da adolescência como quando menstruei pela primeira vez ou quando dei meu primeiro beijo. Nossas conversas aconteciam quase sempre por chamada de vídeo, mas, como ele tinha pouco tempo, eram rápidas, apenas para atualizações. Ainda assim, eu estava morrendo de saudade e não via a hora de termos a família reunida novamente.
Nossa condição financeira é confortável: moramos em um bom bairro, em um apartamento espaçoso. Durante os dois anos em que Tio Bruno esteve fora, praticamente adotei o quarto dele para mim. A saudade pesava, claro, mas também me aproveitei do espaço maior, da cama enorme e, principalmente, do privilégio de ter um banheiro só meu.
Faltando pouco menos de duas semanas para a nossa viagem mamãe recebeu um e-mail de seu orientador do mestrado. Ele havia conseguido o auxílio para a pesquisa, mas o hotel que precisava reservar só tinha vaga justamente no período em que viajaríamos. Foi um balde de água fria. Nosso plano de ir juntas para a Austrália estava arruinado. Para não perdermos as passagens, ficou decidido que eu iria sozinha encontrar o Tio Bruno e ajudá-lo a organizar a volta para casa.
E foi nessa viagem que tudo mudou, a admiração e cumplicidade deram lugar a outros sentimentos.