Eu não tinha beijado Fernanda só por capricho; foi algo mais forte do que eu. Ela parecia ter um magnetismo que me atraía. Quando dei por mim, já tinha avançado o sinal e, apesar de ela ter retribuído o beijo de início, com muita intensidade, quando ela me empurrou com calma, notei que provavelmente eu tinha feito algo errado.
Sua reação não foi das piores, mas ela fez perguntas que eu não soube responder, falou com calma, mas deixou claro que não gostou do que houve. Eu me desculpei e ela disse que estava tudo bem, mas não estava. Acabei fazendo algo que eu odiava: beijar alguém sem permissão. Já tinha xingado e até cheguei a agredir pessoas que tentaram me tocar sem consentimento. Agora eu estava do outro lado da situação.
Tentei agir normalmente depois do meu pedido de desculpas, mas fiquei com tanta vergonha que não consegui olhar nos olhos de Fernanda novamente. Ela parecia não ter ficado muito chateada, mas, com certeza, minha reação impulsiva a incomodou.
Depois de combinarmos como trocar nossas roupas no próximo final de semana, eu a levei até perto da sua amiga e saí dali com a cabeça a mil.
Eu estava envergonhada pela forma como agi, e olha que eu nunca fui de me arrepender de nada que fiz, muito menos de ficar com vergonha de ter beijado alguém. Porém, o maior problema não era este: era ter agido por impulso por causa de uma mulher. Eu nunca tinha sentido atração por mulheres; e o pior, nunca tinha sentido uma atração tão forte por alguém. Eu precisava acalmar meus pensamentos, mas, infelizmente, ali na boate, eu não iria conseguir. Como dona e responsável, sempre havia algo para resolver. O jeito era deixar a noite passar e só depois tentar colocar os pensamentos no lugar.
A noite foi longa; quando consegui sair da boate, já eram sete horas da manhã. Eu estava cansada, porém muito satisfeita; tivemos mais uma noite de muito movimento e muita venda de bebidas. Fui direto para o meu apartamento e, assim que cheguei, fui tomar banho e arrumar algo para comer. Já devidamente alimentada, fiz minha higiene bucal e fui deitar para dormir um pouco. Bom, pelo menos essa era a ideia.
Juro que tentei dormir para descansar meu corpo e minha mente, mas simplesmente não consegui; fiquei me mexendo na cama por horas, tentando achar uma posição mais confortável para conseguir dormir, mas não consegui. As lembranças daquele beijo não saíram da minha mente. Não era exatamente o beijo em si que me tirou o sono, mas as sensações que senti. Eu nunca tinha sentido nada parecido. A corrente elétrica que percorreu todo o meu corpo, o coração disparado que parecia que iria pular para fora do meu peito, o calafrio que percorreu pela minha espinha, a vontade de morar ali naquele momento. Eu nunca tinha sentido aquilo nem nas minhas transas mais apoteóticas; imagina em um beijo. Aquela mulher realmente tinha mexido comigo de uma maneira que ninguém tinha conseguido antes.
Eu estava confusa, assustada e totalmente descontrolada com aquela situação. Desisti de dormir depois de tanto tentar, e aqueles pensamentos simplesmente não deixarem. Levantei e fui procurar alguma padaria aberta para tomar um café tranquilamente e tentar apagar aquela confusão que minha mente estava.
Saí do meu apartamento e fui até uma praça que fica a poucos metros do prédio em que eu morava; eu sabia que tinha duas padarias ali e as duas já estavam abertas. Fui à maior, onde havia várias mesas para os clientes se sentarem. Pedi um café forte e fui me sentar. Do local onde eu estava via o movimento da cidade, que era bem pouco naquele momento. Tomei meu café devagar e tentei não pensar naquele maldito beijo. Estava difícil, e aquilo começou a me deixar irritada comigo mesma. Mas o pior estava por vir: meu celular tocou e eu vi que era minha mãe ligando. Eu já imaginava o que era, então não atendi, mas ela insistiu e achei melhor atender para resolver aquele outro problema.
Mais uma vez ela veio com uma voz calma dizer que Hugo tinha ligado e se explicado para ela sobre o incidente que aconteceu na noite passada, que só queria me proteger e que eu havia entendido errado. Mas eu não deixei ela nem pedir outra chance para ele. Eu disse que não tinha sido um incidente isolado. Nas duas vezes em que tentei conhecer ele melhor, só vi um homem grosso, sem noção, possessivo e descontrolado. Que eu queria distância de homens assim; que da primeira vez eu até relevei ele ter sido grosso e estúpido com outra pessoa, mas que dessa vez foi diferente: ele agrediu uma mulher verbalmente e fisicamente. Que eu não queria ter nenhum tipo de relação com ele, nem como um conhecido com quem a gente conversa às vezes. Minha mãe, mais uma vez, tentou passar pano para o Hugo, mas dessa vez não funcionou; eu realmente não queria convívio com pessoas daquele jeito. Quando percebeu que eu estava decidida, aquela voz mansa dela sumiu; a velha dona Solange surgiu novamente com suas indiretas e seu jeito de achar que sabe o que é melhor para a minha vida. Acabamos discutindo de novo, e aquilo me irritou bastante.
Paguei meu café e peguei outro para viagem. Saí pior da padaria do que quando entrei. Pensei em ligar para meu pai, mas provavelmente, mesmo num sábado, ele estaria no escritório trabalhando; achei melhor não ligar. Voltei para o meu apartamento e me toquei de que eu não tinha nenhum amigo(a) de confiança com quem pudesse desabafar sobre o que eu estava pensando. Aquilo me deu um aperto no coração e algumas lágrimas começaram a se formar nos meus olhos. Sentei no sofá da sala com o copo de café nas mãos e simplesmente comecei a chorar; não havia motivo específico, era apenas uma dor no peito que eu não sabia explicar. Solidão, talvez: apesar de cercada de várias pessoas, eu me sentia sozinha, com um vazio no peito que não parecia ser preenchido por nada que eu fizesse.
Acabei chorando até dormir ali no sofá. Acordei às quatro da tarde, com os olhos inchados e sem saber direito onde estava. Quando meu cérebro voltou a funcionar, levantei como uma maluca; eu estava muito atrasada para abrir a boate e deixar meus funcionários prepararem tudo para a noite de sábado, que era a mais puxada. Liguei para meu barman e pedi para ele avisar a todos que eu iria me atrasar um pouco. Tomei um banho rápido, vesti a primeira roupa que vi e fui direto para a boate.
Foi uma correria para conseguir limpar tudo, reabastecer as bebidas e organizar tudo, mas no final deu tudo certo. Antes da boate abrir, fui ao meu escritório e as lembranças da noite passada voltaram. Fui ao banheiro para tentar lavar a blusa da Fernanda. Deu tudo certo; eu já tinha passado por situações parecidas, por isso eu mantinha um pote de sabão em pó no banheiro e até um litro de alvejante. Já tinha ocorrido de a minha roupa ficar molhada por bebidas. Como eu circulava muito pela boate, às vezes isso acontecia.
A noite foi um sucesso novamente; não tivemos nenhum incidente e o movimento foi incrível. No fim da noite limpamos a boate por dentro e o bar. Gostava de ajudar; o pessoal era divertido e eu me distraía no meio deles. Mas durante a noite minhas confusões voltaram: a imagem de Fernanda, as lembranças das sensações que senti ao beijá-la não saíam da minha cabeça. No início da semana, eu resolvi que precisava desabafar com alguém e só tinha uma pessoa para eu fazer isso: meu pai, meu porto seguro e meu melhor amigo.
Pensei em visitá-lo em casa na segunda à noite, porém meu medo de contar que eu estava perturbada por causa de uma mulher me fez desistir. Eu tinha quase certeza de que ele entenderia numa boa, mas o medo e a insegurança foram mais fortes. Resolvi adiar aquela conversa, mas, depois de outra noite mal dormida e das lembranças atormentando minha cabeça, eu decidi que não era hora de ser covarde, algo que eu jamais fui.
Cheguei ao prédio da empresa do meu pai às dez e meia da terça-feira. Fui ao seu escritório e pedi para a secretária avisar que eu precisava falar com ele. Ela foi até a sala dele e voltou rapidinho, dizendo que ele pediu para eu entrar. Quando entrei, já fui direto dar um abraço nele; ali eu me senti segura e, então, depois de sentar no sofá, soltei a bomba. Tive muito medo da reação dele, mas como eu previa, ele foi um amor comigo. Vi a cara de susto quando contei que havia beijado outra mulher; me deu medo, mas acho que foi susto por não esperar, já que ele sabia quase tudo da minha vida e eu sempre fui hétero.
Porém, depois que terminei de falar, ele foi um amor comigo, me apoiou e disse algo que me assustou. Ele disse que eu estava assim confusa porque estava apaixonada e não sabia como lidar com aquilo. Essa frase ficou na minha cabeça. Ele também disse que queria poder ajudar melhor, dar conselhos mais apropriados, mas não tinha essa capacidade. Porém, ele disse que conhecia alguém que tinha. Meu pai foi até a mesa e chamou a secretária pelo telefone.
A secretária do meu pai se chamava Ana Luiza; trabalha há muitos anos com ele e eu a conhecia há alguns anos dali do escritório. Achei que ele iria pedir para ela chamar alguém, mas quando Ana entrou, ele pediu para que ela se sentasse ao meu lado. Disse para mim que ela era de total confiança e poderia me ajudar melhor, já que era casada há mais de dez anos com uma mulher. Vi o susto no rosto da Ana; acho que ela não esperava aquilo, mas logo ela deu um pequeno sorriso. Meu pai disse que iria deixar nós duas a sós por um tempo e depois voltava.
Fiquei meio sem jeito, mas reuni coragem — não sei de onde — e contei a Ana o que estava acontecendo. Ela me deu muitos conselhos; explicou que tudo que eu estava passando era normal, a confusão, os medos e que a melhor forma de resolver é com calma. Que eu não precisava ficar assustada por saber que eu gostava de mulheres ou que eu me sentia atraída por elas. Que às vezes aceitar isso não é fácil, mas quando aceitasse, minhas confusões iriam sumir. Também disse que tentar fugir não iria resolver nada; falava por experiência própria. Que o melhor era encarar tudo de frente, mesmo que com calma, mas era o melhor a fazer pela experiência de vida que ela tinha.
Aquela conversa com a Ana foi a melhor coisa que poderia ter acontecido; ela me ajudou a esclarecer algumas dúvidas e eu saí dali com a cabeça menos confusa e mais decidida. Também pensei muito no que meu pai disse e que, depois de Ana confirmar, ele provavelmente estava certo. Eu estava apaixonada e não sabia como lidar com aquilo. No fundo, eu agora entendia melhor os meus sentimentos. Ainda tinha medo, mas estava muito mais decidida a encarar meus medos e minha confusão sentimental.
Passei praticamente o resto do dia e boa parte da noite pensando na conversa que tive com meu pai e com a Ana. Na quarta-feira à noite, eu estava no escritório da boate tomando um vinho quando Diego me chamou e disse que tinha uma ligação para mim. Agradeci e disse que iria atender dali mesmo. Peguei o telefone e, quando ouvi a voz da Fernanda, meu coração disparou; fiz o possível para conversar com ela normalmente e acho que consegui, mas quando ela desligou fiquei muito nervosa. Ela iria vir à boate porque precisava da sua blusa e eu não tinha muito tempo para decidir como agir com ela. Então me lembrei do que a Ana falou sobre enfrentar o problema de frente. Decidi que era exatamente isso que eu iria fazer.
Fiquei pensando em como contar à Fernanda que eu estava gostando dela, de como ela mexeu tanto comigo. Decidi que iria trazê-la ao escritório e teria uma conversa honesta com ela. Olhei no relógio e já estava na hora em que ela disse que chegaria. Fui até o bar esperar por ela, mas, depois de cinco minutos, a ansiedade já tinha tomado conta de mim e eu fui até a porta da boate para esperar por ela. Quando abri a porta, ela estava parada do outro lado da rua, parecia indecisa; achei melhor chamá-la. Ela me olhou e veio até mim.
Eu estava muito nervosa, mas tentei manter a calma e levá-até o escritório. Quando entramos e eu a olhei, esqueci tudo o que eu tinha planejado. Eu senti aquele mesmo magnetismo que parecia me atrair para ela. Eu precisava beijá-la de novo, senti-la nos meus braços novamente. Porém, desta vez eu queria fazer tudo certo. Eu precisava da sua permissão e, mesmo com medo segurei ela pela mão quando ela foi sair depois que devolvi sua blusa, aproximei-me mais dela e fui totalmente honesta sobre minha vontade, e, para minha surpresa, mesmo com uma certa hesitação, ela não apenas permitiu, mas me beijou primeiro.
Naquele beijo eu tive a certeza de que eu a queria, não apenas naquele momento, mas para mim, eu queria sentir aquelas sensações pelo resto da minha vida. Eu estava totalmente apaixonada por aquela mulher. E pelo jeito que ela me beijava, pela intensidade dos seus toques, eu sentia que não era só eu quem estava apaixonada ali.
Nossos beijos e toques tornaram-se intensos a cada minuto que passava. Eu estava tão entregue a ela que não percebi quando ela começou a tirar minha blusa; só voltei a mim quando ouvi batidas na porta e vi que minha blusa estava toda aberta. Afastei-me dela rapidamente e ajeitei minha blusa e meu cabelo. Abri a porta apenas o suficiente para colocar o meu rosto para fora. Era uma das meninas que trabalhava comigo, perguntando se poderia sair mais cedo para ir a uma festa de aniversário de uma amiga. Disse que não havia problema algum e que ela poderia ir. Nem esperei ela se despedir direito e fechei a porta. Fernanda estava com os olhos fixos em mim.
Fernanda— Não vamos ter paz aqui. Você não pode sair no momento?
Sabrina— Aqui realmente vai ser complicado. Eu até posso, mas por quê?
Fernanda— Me leva ao meu apartamento; eu preciso de uma carona e de um lugar tranquilo para continuar onde paramos.
Eu, mesmo com algumas dúvidas ainda sobre fazer o que provavelmente faríamos, não pensei duas vezes e decidi ir até o apartamento dela. Não sei como seria o depois, nem se conseguiria me entregar totalmente a uma mulher, já que eu nunca tinha feito isso. Mas eu nunca deixei de viver minha vida por medo e não iria começar agora. Eu iria arriscar, e seja o que Deus quiser.
Continua..
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Criação: Forrest_gump
Revisão: Whisper